quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Olhar para o passado



Não é de hoje que eu não escondo a minha indignação frente à aceitação apática da população brasileira ao Governo Lula. Em primeiro lugar porque do ponto de vista de transformação da realidade do país este é um governo absolutamente medíocre, que encaixa-se perfeitamente no velho bordão "tem coisas boas e novas, mas as novas não são boas e as boas não são novas". Por todos os aspectos que possa ser analisada a realidade brasileira de 2003 para cá, em nenhum se encontrará uma transformação causada por uma iniciativa desta gestão.
Se fizermos o que Lula gosta tanto, que é compará-lo ao Governo Fernando Henrique Cardoso, aí o petista perde de lavada. Provavelmente em nenhum período da história o Brasil mudou tanto - e para tão melhor - quanto de 1995 a 2002. Estabilização da moeda, universalização do Ensino Fundamental, programas de transferência de renda (com porta de saída), concessão do sistema de telecomunicações (que nos permitiu ser hoje um país com quase uma linha de telefone celular por habitante, o terceiro país do mundo em acessos à internet e a democratização do acesso ao telefone fixo), e outras tantas fundamentalmente proporcionadas por iniciativas do Governo.
Em segundo lugar entre as coisas que me indignam nessa postura "deixa a vida me levar" frente ao Governo Lula, é a aparente descrença da população na possibilidade de algo melhor. É notória a "contribuição" deste governo para a pasteurização de toda a classe política, especialmente no que diz respeito à ética e honestidade. Depois de passar tantos anos dizendo que ninguém faz e todo mundo rouba, o PT chegou ao poder para provar sua teoria. A impressão que temos é que a população inconscientemente reflete algo como "se até o Lula quando chegou lá roubou, então é porque o poder corrompe mesmo".
Esse fato fica evidente no diálogo que FHC conta ter tido com seu barbeiro, o Jacaré. Ele disse ao ex-presidente que achava que quem chega lá tem mesmo o direito de roubar. Indignado FHC perguntou "Jacaré, você está me chamando de ladrão ou de bobo?". Para uma grande parcela do povo brasileiro, fustigado pelas dificuldades do dia-a-dia, parece natural não se conter frente a tamanho volume de dinheiro. Se até o PT que falava tanto contra a corrupção, quando chegou lá se lambuzou todo... isso sem mencionar os termos em que se dá a relação de Lula com o Congresso Nacional, inclusive com algumas lideranças da oposição, infelizmente.
Mas ultimamente algo mais vinha me incomodando e eu ainda não estava conseguindo expressar bem o que era. Consigo hoje graças à brilhante palestra proferida ontem pelo ex-senador e ex-deputado federal Roberto Freire, presidente nacional do PPS. O incômodo começou quando do incentivo que o Governo Federal deu à compra de automóveis como medida de enfrentamento à crise econômica mundial. Carros custando até R$ 10 mil a menos, com amplas linhas de crédito para o consumidor parcelar a perder de vista. Eu ficava pensando que grande oportunidade o governo perdia de direcionar esses incentivos apenas a automóveis de até tal tamanho movidos a gás, etanol ou flex.
Aquilo que me vinha como uma ressalva instintiva à iniciativa, Roberto Freire esclareceu ontem de forma arrebatadora: Lula vem fazendo escolhas que apontam o Brasil para o passado.
Está claro! Diversas iniciativas deste governo demonstram isso. Em todo o período de enfrentamento da crise econômica mundial, paralelamente a um discurso ridículo de fingir que o Brasil não sofreria conseqüências, Lula vem preparando o Brasil para sustentar sua economia em cima dos mesmos pilares que sustentavam o mundo até setembro de 2008 e ruíram, enquanto o mundo todo tenta construir um pós-crise menos vulnerável. Estamos aqui de novo comemorando a alta da Bolsa de Valores, em vez de apontarmos para transformações do sistema econômico, menos dependente do capital especulativo.
Vejamos outro exemplo no Pré-Sal. Lula ufaniza-se todo, a mão suja de petróleo, coloca suas entidades da sociedade civil absolutamente instrumentalizadas (talvez a mais maligna das heranças que este governo deixará) nas ruas pela defesa do petróleo. Enquanto isso, o mundo todo procura deixar de depender do petróleo, quer desenvolver combustíveis limpos e renováveis, campo em que o Brasil já esteve na ponta mas hoje já perde sua liderança porque quando o mundo todo olhou para o etanol brasileiro viu também os semi-escravos do canavial, e em vez de enfrentar o problema Lula de novo preferiu fingir que era pura tentativa de nos prejudicar.
Há meses ele repete a história da perereca no Rio Grande do Sul, onde uma obra ficou paralisada por três meses por conta da suspeita de que estava sendo feita no habitat de uma espécie de anfíbio ameaçada de extinção. No fim, não era nada daquilo e a obra prosseguiu. Lula indignado repete aos quatro ventos ser um absurdo uma obra ficar paralisada durante todo esse tempo por conta de uma perereca. Por que em vez disso, não investe mais em pesquisas ambientais? Assim sinalizaria que o problema não é a vontade de se preservar uma espécie ameaçada de extinção, mas sim o tempo tomado para verificar-se que não era o caso.
O mesmo ele disparou hoje. Que absurdo o TCU paralisar uma obra por irregularidades. Que deixe a obra continuar e depois puna os responsáveis pelos desvios. Não percebe que muitos desses esquemas de irregularidades envolvem a compra de materiais de péssima qualidade cobrando o preço de bons materiais, e que deixar continuar a obra num caso desses poderia comprometer o resultado final. Ou não quer perceber, e repete exaustivamente seu desprezo pelas leis, elas o atrapalham. Talvez o ideal de Lula seria governar em regime absolutista.
Estamos chegando ao último ano do Governo Lula e cada vez mais parece que seu legado será de mediocridade, nivelamento por baixo, populismo e perda de oportunidades de todo tipo. Um presidente que poderia ter utilizado sua altíssima popularidade para transformar esse país, mas escolheu apenas tocar o barco e olhar para trás.

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